4/08/2011

Há Dois Anos

Esse texto é de uma amiga que precisava de um lugar para divulgar o texto espero que gostem e a sigam no twitter @MariJaExiste

  Quando cheguei, sabia que aquele dia seria difícil. Todas as segundas-feiras o são. Mas,não imaginei que seria o meu último. Isso nunca. Deixei minhas coisas espalhadas pelo
chão do quarto do meu namorado. Deixei mensagens sem responder na caixa de e-
mails. Deixei minha família pensar que eu estava bem. Até eu pensava!Cumpri com meu dever. Fui trabalhar, conversei com colegas, sorri. Fui ao medico. Ele ficou feliz por mim, pelo meu empenho, dedicação em fazer o tratamento. Eu fiquei feliz. Fiquei? Segui até meu outro destino. Estava atrasada, mas veria meu namorado e tudo ficaria bem. O portão estava trancado, não pude entrar. Foi quando meu desespero começou.
  Me senti sozinha, inútil. Fiquei vulnerável, abri a guarda. Pensei em voltar para casa,mas não consegui. Pensei em ir para qualquer outro lugar onde houvesse pessoas, mas fiquei presa em algum lugar entre a realidade e a inconsciência. Andei meio sem rumo, encontrei um banco e sentei. Tudo o que eu conseguia fazer era chorar. A tal felicidade que vinha sentindo esses dias simplesmente desapareceu. Senti que uma parte de mim estava morrendo e queria que a outra parte já estivesse morrido. Chorei por minutos que pareceram horas até ser jogada na realidade com aquele velho perguntando se alguém
tinha morrido.
  “Não. E cala sua maldita boca.” – gritei. Ele não se assustou e continuou me incomodando. Pensei no revólver que tinha em casa. Deveria te-lo carregado hoje.
Seria lindo ver aquilo! Um tiro, bem de perto, no meio daquela cabeça oca e mal amada
daquele homem da esquina.
  Entrei no primeiro ônibus que vi, meu maior desejo era sumir, poder chorar a minha dor sozinha, à vontade, sem que ninguém ficasse julgando ou pensando. Conforme o ônibus avançava pela avenida, minha vontade de desaparecer do mundo aumentava. Pensei em pegar uma muda de roupa, ir pra rodoviária e entrar em qualquer ônibus que tivesse. Ficar assim, rodando sem rumo, sem me preocupar. Pensei também em jogar todas as minhas coisas fora, andar sem rumo, sem saber de mais nada.
  Quando cheguei perto de casa, decidi descer, ir para casa, tomar um banho e dormir. A dor passaria. Não consegui chegar lá. Vi um caminhão vindo, joguei minha bolsa no chão e pulei na sua frente. Nesse minuto, meu namorado sentiu um calafrio, ele disse. Minha mãe acordou de um pesadelo. Eu finalmente consegui a paz que queria. Senti dor em todos os ossos do meu corpo. Nos músculos, mas a tristeza tinha ido embora. Me levaram ao hospital. Tentaram me fazer sobreviver. Mas, eu não queria. Eu sabia que aquela dor era tudo o que eu podia suportar. Jamais conseguiria conviver com aquela tristeza de novo. Hoje faz 2 anos que me suicidei. Hoje faz dois anos que aquele motorista está bêbado, que minha mãe surtou e sumiu no mundo e que meu namorado
não fala.

11/29/2008

10 segundos - A correria de cada dia

  Já estava ali a algumas horas e começava a suar. Marcelo tinha passado mais cedo e pedido para fazer umas modificações no seu Stilo. Tinha perdido a manhã toda e parte da tarde no processo, mas finalmente tinha acabado e estava orgulhoso do resultado. O carro estava mais forte, as retomadas estavam mais firmes e a estabilidade teve grande melhora. É claro a injeção ainda iria precisar de alguns ajustes finos, mas isso já era especialidade do Marcelo que ia afinar tudo.

Além das modificações na performance ele também tinha feito outras na estrutura do carro, vários compartimentos secretos foram adicionados. Essas eram as mais importantes teriam de ser perfeitas para que não ficassem aparentes, tudo tinha sido verificado duas vezes, um único erro poderia ser o fim dos dois.

  Marcelo chegou no horário combinado, eles agora iria acertar a injeção eletrônica. Tiago abriu o capô e começou a aquecer o motor, no meio tempo Marcelo ligava o laptop a central elétrica. Eles gastaram a tarde toda acertando o carro, mas no final o resultado foi incrível nem mesmo Tiago esperava uma melhora tão significativa na performance.

  Cansados eles foram se deitar, teriam uma longa noite. Iriam sair as 22 horas com destino ao litoral e teriam de estar de volta o mais rápido possivel. Aquela seria uma viagem cheia de aventuras e perigos.

21:30 era o que informava o despertador logo após acordar os dois jovens, eles tomaram banho, se alimentaram e se prepararam para a viagem. Como disfarce eles levavam uma barraca, alguns colchonetes e comida no porta malas do carro. Chegaram ao destino c/ pouco mais de três horas, Marcelo na moto de Tiago e Tiago dirigindo o Stilo. Foram direto para um armazém proximo ao cais, lá encontraram com o contato, os pacotes contendo ecstasy e LSD já estavam prontos. Em menos de vinte minutos Marcelo e Tiago haviam colocados todos os pacotes nos compartimentos secretos. Entregaram a mochila com todo o pagamento, duzentos mil, ao contato e se foram.

  Desta vez as posições estavam invertidas, Tiago ia na frente com sua moto atento para possíveis bloqueios ou blitzs, Marcelo vinha dez quilômetros atrás esperando qualquer contato pelo rádio. A adrenalina inundava o corpo dos dois rapazes, Tiago sentia uma angustia incrível na saída de cada curva, Marcelo se sentia apreensivo de que cedo ou tarde Tiago o avisasse de algum problema. Passaram os primeiros cinquenta quilômetros assim até que marcelo não aguentou mais:

  - Tiago você tá ai?
  - Fala fi! Tá nervoso?
  -Tô não aguento esse silencio e toda essa expectativa, até parece que é a primeira vez.
  - Nossa você lembra de quando arrumamos esse contato? Éramos loucos nos arriscando tanto.

  Tiago se referia à primeira viagem que tinham feito para comprar as drogas, Marcelo havia conseguido o contato e o capital para investir. Marcelo tinha tudo para poder lucrar com o esquema sozinho, mas neste tipo de negocio não se sobrevive muito se não tiver em quem confiar. Foi assim que ele acabou convidando Tiago para que entrasse com ele nesse esquema ilícito, Inicialmente ele ficou com medo mas como as margens de lucro eram grande ele acabou se rendendo à ambição.

  Logo na primeira viagem tiveram um lucro de quase 30 mil. Souberam re-investir os lucros e hoje só não ganhavam imensas fortunas por medo de serem presos, mas pelo menos o dinheiro era o suficiente para sustentar seu vicio por carros. O dinheiro era usado para comprar carros, organizar rachas e manter o estilo de vida dos dois.

  -  Pior que é mesmo Tiago, mas tivemos sorte até agora. Nada de problemas com a policia.
  - É mesmo, incrível como nunca demos de cara com uma blitz.

  Os dois continuaram conversando por mais alguns minuto até que de repente Tiago pede que Marcelo se cale.

  - Marcelo fica esperto que estão piscando farol! Pode ser policia.
  - Tá certo vou encostar. me avisa quando tiver certeza se podemos continuar.

Continua no proximo post...

9/15/2008

Só mais um dia

  Era por volta de duas e meia, o sol brilhava imponente no céu. Preso no seu próprio quarto ele suava, não suportava o calor infernal. Preciso sair de casa urgentemente, pensava ele, Melhor eu ligar para alguém. Foi quando ele se lembrou dela, pegou o celular e discou aquele número tão familiar.

  -Oi- Aquela voz doce sempre o surpreendia.
  -Ei meu amor, tudo bem?
  -Tudo, e você? Como anda?
  -Com saudades de você, que tal a gente aproveitar o sol e sair?
  -Claro, vamos onde?
  -Pensei em jogarmos uma sinuca, o que você acha?
  -Nossa eu vou adorar, passa aqui em uma hora e meia e sairmos. Ok?
  -Combinado, nos vemos daqui a pouco, beijo.
  -Beijo.

  Eles eram amigos a pouco tempo, mas ele se surpreendia cada vez mais com a falta que ela fazia em sua vida. Gostavam das mesmas coisa, passavam horas conversando. Ultimamente era sempre para ela que ele ligava quando queria simplesmente passar o tempo.

  Se arrumou lentamente, prestando atenção a cada detalhe. Sentia- se melhor quando podia se dar ao luxo de organizar cada detalhe do sua aparência.Pronto pegou o elevador e desceu até a garagem. Dirigia como se o tempo tivesse parado, respirando fundo como que para preparar-se para o que viria a seguir.

  Com o carro parado em frente a casa dela tocou a campainha. Quando ela apareceu tudo parecia um sonho. Aquele andar compassado, o modo como ela sorria. Ah aquele sorriso, o sorriso que sempre o encantou.

  Nada mais importava ele a amava e nunca a teria em seus braços.

9/07/2008

Só uma gota

Já era madrugada, havia me formado a pouco. Cai dançando com o vento, tendo por musica os trovões que enchiam de som aquela noite chuvosa. Alucinante e desvairado o vento me conduziu a uma janela aberta.

  Adentrei o comodo e me precipitei em um rosto adormecido. Eu era a gota d'água aquela que o acordou depois de tantas outras, a escolhida. Ele acordou, mas não abriu os olhos. Não me limpou de seu rosto. Simplesmente curtiu o som da chuva tamborilando nas diferentes superfícies e o rimbombar distante dos trovões.

   Ainda de olhos fechados, mas com mente aberta, uma imagem foi surgindo em seu subconsciente. A imagem de uma menina. Primeiramente sorrateira, tomando conta aos poucos de seus pensamentos e em seguida de forma avassaladora. Em poucos instantes nada mais importava, nem minhas irmãs que insistiam em tocar-lhe a face, nem os trovões barulhentos.

  Mas não uma menina qualquer. Uma menina a quem ele admirava, a quem ele desejava e a quem ele queria bem. Aquela imagem, idealizada por um amor platônico, revelava a garota. Aquela que mesmo sendo insegura, sabia muito bem o que queria. Aquela que mesmo sendo inflexível, sabia ser meiga. Aquela para quem ele entregaria seu coração sem exitar.

  Ele já não conseguia controlar, queria ela e queria agora. Impossibilitado de manter os olhos fechados decidiu sair do torpor. Abriu os olhos colocou as mãos por trás da cabeça,reparou que já começava a clarear. Ficou ali pensando nela, inquieto. Bolava planos mirabolantes para conquista-la, se imaginava ao seu lado. Mas aquilo tudo não era o suficiente para aplacar o desejo. Tomou um banho, pegou o capacete e saiu.

Autor da foto: http://www.flickr.com/photos/evaekeblad/

8/07/2008

10 segundos - Feel the vibe, be the beat

  Tudo ao redor era um simples borrão, somente à frente a visão era capaz de distinguir objetos. Suas mãos captavam as vibrações, que mais do que qualquer coisa dava a sensação de velocidade e perigo, esta sensação que eles tanto buscavam. Pilotar àquela velocidade era como voar, o atrito com o solo é algo que parecia não existir, se sentir tão livre era o único objetivo. Este vicio por velocidade era o que unia e separava os quatro pois apesar de gostarem da mesma coisa usufruíam de forma variada.

  Viviane foi a primeira a avistar as luzes, era como se algo naquele vale estivesse vivo e pulsando em um ritmo frenético, tudo brilhava. A noite ia começar de verdade agora. As luzes piscando e se movendo alucinadamente, aliado aos movimentos de malabares e pinturas brilhando sob a luz negra, atraiam a atenção difusa de Viviane deixando-a em êxtase. Aquilo era o lugar perfeito para alguém como ela, a vibe impregnava todo seu corpo e fluía pelos poros deixando a agitada e com vontade de dançar. Era como se a noite estivesse recomeçando, ela se sentia recarregada e pronta para outra.

  Mais atrás, Marcelo apreciava o efeito do ambiente em Viviane. De repente o rosto dela se iluminou e um sorriso verdadeiro surgiu naquele rosto, cada parte daquele corpo vibrando, desde o pé batendo no chão à língua passeando nos lábios. Uma chama de desejo ardeu em seu peito, como ela o atraia sem nem ao menos tomar consciência disto era incrível. Colocando este sentimento de lado, ele começou a esquadrinhar o lugar, a festa estava cheia, em frente as caixas de som varias pessoas dançavam simplesmente pulsando no mesmo ritmo da batida incessante. O scoth bar estava lotado, e quatro barmen se desdobravam ao preparar drinques, Marcelo reconheceu facilmente a garrafa de Chivas, seu whisky favorito, na estante. Uma dose dupla seria o suficiente para começar.

  Tiago mais atento aos malabares que estavam sendo usados, pediu a Marcelo a chave do carro e foi buscar os seus. Uma das coisas que mais curtia em raves era poder brincar com os malabares incandescentes que atraiam a atenção e o mesmo tempo ajudavam a criar aquele clima diferente que uma rave deve ter. Aquele vibe beirando entre algo mistico e ao mesmo tempo pacifico, e a completa loucura do ritmo psicodélico. Um lugar onde todos estavam sintonizados e só pensando em curtir o momento. Já no clima ele se aproximou dos amigos brincando com os malabares como se fosse um palhaço, ora jogando-os ao ar, ora se arriscando manobrando-os próximo ao corpo.

  Daniella apesar de não demonstrar estava contrariada, raves não eram o seu tipo de festa favorita. Preferia estar em outro lugar, o suave odor de maconha no ar a deixava incomodada. Sabia que tanto Marcelo quanto Tiago usavam drogas, mas ela nunca iria fazer isso. Não era adepta a nenhum tipo de vicio, mesmo álcool e cigarro eram vícios que ela repudiava. Mesmo incomodada com o ambiente ela não iria para outro lugar pois a companhia de seus novos amigos era algo que ela sentia muita falta agora.

  Todos se sentiam recarregados, apesar das emoções e pensamentos diferentes. Recarregados pela energia que sempre os entorpeciam quando estavam reunidos, como se juntos eles fossem imunes a tudo e a todos. Fortalecidos por esse sentimento inebriante eles dançaram, pularam e se divertiram até o amanhecer.

  5:30 da manhã, o céu começa a clarear, Tiago cutuca, Marcelo e aponta para o horizonte. Marcelo, que dançava com Viviane, por sua vez a abraça e mostra o firmamento transitando entre o negro e o amarelo, passando pelo azul. Tiago logo em seguida puxa Daniella e os dois se juntam aos seus amigos. Os quatro, abraçados e contemplando as Montanhas. Quando a primeira nesga daquela esfera brilhante aparece por sobre as rochas eles saem correndo. Cada um para seu veiculo, afinal de contas é chegada a hora de correr para casa.

Autor da foto: http://www.flickr.com/photos/ravescuritiba/